São grandes as atuais vulnerabilidades econômico-sociais do Nordeste, assim como as tendências que elas projetam para o futuro, se não forem gradativamente superadas. Ressalte-se, inicialmente, o elevado grau de dependência regional de transferências de renda do resto do País, operadas principalmente pela União.
No que respeita ao processo de ocupação da região, cabe citar que o vasto interior nordestino encontrava-se virtualmente ocupado já em fins do século XVIII. Essa ocupação se deu, basicamente, pela introdução da pecuária extensiva, acompanhada de lavouras de subsistência. Na faixa litorânea predominava a monocultura canavieira exportadora, com os influxos de penetração comandados pelos sucessivos ciclos de expansão e declínio da economia do açúcar.
Pelo processo de interiorização, a partir de Minas Gerais, outros pioneiros - os Bandeirantes -, à busca de pedras e metais preciosos ou de novos espaços para suas boiadas, adentraram através do rio São Francisco. Desse processo, emergiu uma ocupação pulverizada com pequenos aglomerados urbanos, que no passado eram sedes das fazendas e muitas, ainda hoje, apresentam fraca articulação e poucas alternativas econômicas.
O processo de urbanização ainda hoje se concentra no litoral e se torna rarefeito no interior. A hierarquia urbana regional apresenta três centros metropolitanos (Salvador, Recife e Fortaleza) e todos os submetropolitanos (Aracaju, Maceió, João Pessoa, Natal e São Luis - a exceção é Teresina) litorâneos; os centros regionais são, em geral, à medida que se avança da costa para o interior, cidades pouco expressivas, demográfica ou economicamente.
As indústrias mais modernas, implantadas graças ao atrativo dos incentivos fiscais sofrem de desarticulação, que ocorre tanto espacial como intersetorialmente. Além de apegadas ao litoral, são pouco voltadas ao mercado interno e, em muitos aspectos, representam uma projeção desconexa do parque industrial do Sudeste, região da qual muito dependem, tanto pelo capital e tecnologia, quanto pelo mercado, ao qual destinam a maior parcela de sua produção.
Desde os anos 60, o saldo da balança comercial da região, compreendendo tanto suas importações e exportações com o exterior quanto o comércio interregional, é altamente negativo: esse déficit (que foi de quase US$ 7 bilhões em 1991) tem sido sempre superior a 10% do PIB e, embora não existam informações, nada sugere que a balança de serviços seja positiva.
Verifica-se, assim, que a absorção regional de bens e serviços é muito maior do que a produção interna, sendo esse diferencial entre produto e renda financiado, basicamente, por transferências públicas, seja para os estados e municípios, seja sob a forma de incentivos fiscais, seja pela previdência social (aposentadorias e pensões). No meio rural e nas pequenas cidades, aposentadorias e pensões constituem, hoje, importantes fontes de renda para a população mais carente, chegando os benefícios pagos em boa parte do Semi-Árido a representar mais de 40% do produto interno.
Mais grave ainda é a situação social.
A despeito dos avanços das últimas décadas, particularmente dos anos 70, em muitos dos indicadores sociais da região, as desigualdades interpessoais de renda se agravaram fortemente: os coeficientes de Gini cresceram de 0,59 em fins da década de 60 para 0,64 ao final da década passada, com os urbanos evoluindo de 0,60 para 0,64, e os rurais, de 0,47 para 0,54. Mais de metade das famílias vive em situação de pobreza crítica, com rendimento per capita anual de US$ 214. São quase 22 milhões de pessoas, das quais mais de 12 milhões no meio rural.
Os pobres do Nordeste agrário correspondem a 63% da pobreza rural do País e a 32% dos pobres brasileiros. Eles são 9% dos brasileiros, mas recebem menos de 1% da renda familiar nacional. Seu número seria hoje certamente muito maior não fossem as grandes migrações rural-urbanas verificadas ao longo das últimas décadas, que operaram, o mais das vezes, meras transferências inter e intrarregionais de pobreza.
Na década de 60, o volume líquido de emigrantes do Nordeste rural foi de 4,1 milhões, dos quais 42% ficaram retidos no meio urbano regional, com os restantes 58% seguindo para outras regiões, em especial, para as grandes metrópoles do Sudeste. Já nos anos 70, aquele volume foi de 4,6 milhões, com as cidades do Nordeste apresentando maior poder de absorção: 63% (2,9 milhões). Isso significa que o Nordeste agrário tem revelado baixíssima capacidade de retenção relativa do crescimento vegetativo de sua população: de 28% dele na década de 60 e de 16% na de 70. Nos anos 80, essa capacidade de retenção tornou-se negativa porquanto o Nordeste apresentou redução em sua população rural.
Algumas outras características econômico-sociais da população pobre, em 1990, do Nordeste rural, confirmam a persistência ali de situação de grandes carências. O número médio de dependentes, por família, era de 4,3 pessoas (comparados com 2,5 pessoas para os não-pobres). Só 65% das crianças (0-14 anos) freqüentavam a escola, 66% dos chefes de família não tinham qualquer instrução e menos de 4% deles tinham mais de 4 anos de escolaridade. Viviam da agricultura de subsistência 83% dos chefes de famílias pobres, cuja renda familiar dependia em 76% daquela atividade. Apenas 3% dos domicílios dispunham de alguma forma regular de abastecimento d'água e somente 7% tinham geladeira.
Nesse contexto, e considerando o grau de pobreza vigente, não é preciso lembrar que o Nordeste rural em seu conjunto ainda é muito subdesenvolvido. Com efeito, se sua população é 13% da brasileira, sua renda é somente 3%. A renda familiar per capita anual dos "não-pobres" é apenas US$ 961 (sendo 4,8 vezes superior à dos pobres), e a do conjunto da população (US$ 435) mal supera a linha de pobreza.
Note-se que esses dados apresentados retratam a situação social - o Nordeste rural - de grande expressão demográfica, ocupando espaço ecotropical diversificado, que não deve ser confundido com o Sertão árido territorialmente dominante. Segundo o Projeto Áridas, com base em dados de 1991, era de 9,1 milhões o número de pobres do Nordeste urbano, o que representava 23% da pobreza total do País e 48% da urbana. Desse total, 2,2 milhões (24%) viviam nas três regiões metropolitanas regionais (Fortaleza: 735 mil pobres; Recife: 895 mil; e Salvador: 574 mil); os restantes 76% (6,9 milhões) habitavam as demais cidades, vilas e áreas urbanas isoladas. A incidência de pobreza, de 38% para o meio urbano regional como um todo, era de 29% para as regiões metropolitanas e de 41% para o Nordeste urbano não-metropolitano.